23 de agosto de 2012
PARA MUITOS DE MIM

Memórias fragmentadas, já gastas pelo passar dos dias efêmeros, trechos de vida que ficam líquidos diante da história da minha origem.
Lembro do cheiro do café invadindo a sala pequena e do gosto doce das laranjas depois de serem descascadas pelas suas mãos calejadas de trabalho.
Parecia que o mundo era tão bonito quando as tardes passavam regadas à cana minuciosamente dividida entre todos os primos, que ali, naquele quintal eram todos "fios" e "fias"...
E o bolo de chocolate macio, sempre dando boas-vindas à casa que já foi extensão de mim? Era sempre infinito, porque continha o amor da acolhida e a simplicidade do cuidado.
Quantas vezes corri pelos corredores para que você não pegasse meu amarrador de cabelo (o que era totalmente em vão devido a minha pequenez)? Como eu gostava desse jeito sutil e espontâneo de ser amada. Você sorria e me devolvia, já indicando que a corrida ia recomeçar em breve, neste rito de cumplicidade único e singular.

(Não sei nem como expressar o quanto sou grata por estas vivências cotidianas, que me ensinaram como celebrar a vida e, o quanto o sentido da minha existência está intrinsecamente ligado ao percurso da minha família.)

...Teu jeito de me proteger dos perigos do mundo foram aos poucos me mostrando que eu sempre teria para onde voltar quando minhas fragilidades doessem demais. É difícil não chorar quando percebo que teus pequenos gestos foram construindo minha fortaleza, porque sem você aqui, eu já teria que aprender a me defender sozinha.
Sem contar da tua foto na escada, toda vestida de branco e olhando como quem não vê. Já não sei mais onde está esse registro do quanto você era guerreira, mulher, intensa e corajosa (pois é assim que me lembro), mas ouço com alegria quando alguém me diz que tenho seus traços. Às vezes fico olhando no espelho tentando encontrar um pouquinho dessa coragem que lhe era tão peculiar... E nesta busca, encontro.
E o jeito certo de escolher melancias? E a lida dedicada com o milho, tão saboroso... 

Queria que vocês estivessem aqui, para darem uma olhada ligeira de canto de olho, em como estou. Vocês sempre torceram por cada uma dessas alegrias. Lembro-me dos sonhos da infância, do jeito como você dizia: "Imagina, fia, quando você casar? Será que vou estar vivo?"... 

E estão. Todos vocês. Bem aqui dentro de mim. A saudade ainda dói, mas as lembranças boas são tão maiores que qualquer dor... O afeto prevalece, passe o tempo que passar.







Aos meu avós, Napoleão e Yvonete. E aos meus amados tios Graça, Antônio e Carlos.

14 de agosto de 2012
gratidão e kairós...



Ao som de: 


Lis olhou por cima do viaduto e fingiu ser a única pessoa viva no mundo. Fechou os olhos e seguiu o rumo do vento, deixando os cabelos dançarem...
Sentiu foi é gratidão. Lembrou de uma música triste e de como já chorou pela estranheza do mundo...
Vai ver a gratidão é mesmo um acalanto choroso, de cheiro doce, melodia tranquila e de lembranças ácidas.
Lis teve seu momento de epifania ali, no meio da multidão sem rosto, com os pés cansados de subirem e descerem para lugar nenhum. Sorriu espantada por ter o coração sereno no meio da orquestra do caos.
A vida nem sempre foi carinhosa. Todo pranto calado e todo grito estancado foram caminhos necessários para fortalecer o espírito e perceber que a felicidade enfim, não é um estado que oscila de acordo com a gentileza do mundo. Lis viu que há algo dentro dela que está sempre lá, a felicidade pura e lapidada, que construiu ao longo dos tempos com carinho, açúcar e muita vontade. 
É esse sentimento extenso e largo de agraciar a vida com todas as dificuldades que ela tem que faz Lis ir um pouquinho mais longe, de encontro com o coletivo, com a transformação, com os olhares que receberam muito pouco do mundo, com um lugar onde nós - desavisadamente - chamamos de sofrer. Seus pés já sabem onde ir e seu cansaço já vale a pena.
Lis vivenciou seu mundo naquele espaço kairós, que pode ter durado horas ou segundos... Deixou-se ser, sem regras, sem razão.
Viu rostos que a viram devagar, sem pressa de a ler. Gente simples ou não, leve ou não, mas sempre diversa, cuidadosa e terna. Ah, a ternura! Jeito manso de conhecer com o olhar. Encanta Lis no primeiro balanço e Lis responde, convidando a gente terna a partilhar da vida com ela...

Abriu os olhos, retomou o fôlego e seguiu em frente. O ônibus chegou tão rápido... Gratidão, gratidão.