29 de junho de 2008
no image

Então, quando me dá cinco minutos
E eu quero tratar de mand ar
Estabeleço certas coisas:
Mando a palavra rim ar,
e abusada, defronta cara-a-cara.
Mando a poesia cal ar.
Ela cutuca até se fazer pronta
e falante, a tagarel ar...
Mando então, com esperanças
A cor mais viva, se apag ar.
Ela vem, arco-íris
terra, céu, fogo e m ar.
Aí, só pra ser chata,
desisti de tentar mand ar.
Pra dar liberdade pra tudo isso,
E sem querer, eu rimei.
(susto)
28 de junho de 2008
E eu que sombra era,
Fugidia entre espaços,
Anulei por segundos minha força
pra encontrar a tua.
Eu que era piso vacilante,
Me faço e refaço em piso firme
que mesmo assim rege dança
em calçadas largas de grama.
E eu, que era verbo imperativo?
Me permito ser canção,
Ser prosa poética, flexível
Ser rima rara, da manhã.
Eu era, era lago...
Já desaguo em Oceano
Faço sons de ondas leves
Carinho para a areia.
Fui, leite derramado - e -
não chorei. }
.






-
Da primeira vez, era cuidado.
Da segunda vez, a emoção.
Na terceira, meu bem, encanto puro.
E na quarta vez, um adeus sem explicação.


-
Não sou indecifrável,
Descobri quando você chegou
e olhou a alma, com licença.
Falava o que eu pensava,
me esperava dizer,
quando era o que você diria,
nomesmosegundo.
Atirou uma pedra na janela,
E não ficou lá embaixo
A esperar pelas tranças.
Subiu e disse, meio sem jeito,
Oi.
Acho que as coisas fazem sentido...


-

Hoje eu vi pombos tirando a sorte em realejos e crianças comendo migalhas de pão.
Foi na pracinha da infância, que eu andava de bicicleta e comprava amendoins para mamãe.
A sorte dos pombos mudou todo o cenário fantasioso que construí por anos a fio, a sorte queria dono acessível, dono presente. Aquelas crianças não lidavam com a realidade...
Por alguns minutos pensei em tirar tudo do avesso, modificar o que era tão evidentemente constrastante e quem sabe então cirandar com a alegria de um domingo em família. Talvez pudesse parar de pensar e agir ao meu alcance.

Chamei o maiorzinho:
- Menino!

E lhe entreguei uma sorte colorida. Daquelas que se assopram no ouvido e que não fazem sentido no começo, mas que podem impulsionar para um novo dia mais vital. Parece minúsculo, mas um dia já fui quem a recebeu...
Espero que amanhã ele espalhe sorte para seus pequenos e que as pombas, bem, as pombas se coloquem a comer migalhas de pão.


-
26 de junho de 2008
i n s p i r a r


Encontrar a inspiração. . .
Alguém me cutucou de forma equilibrada,
Me fez repensar meus conceitos de coragem
Meus porquês das dificuldades
De apertar o botão “publicar”
- da vida.
Admitir ser, se permitir escrever, escrever livremente.
Agora é lema.

Encontrar a inspiração,
Quando se mostra querendo brincar:
Se esconder por entre balaústres
Chamar com voz fina, distante
E como num lapso, silenciar despudoradamente.
Procurar às vezes cansa.


Encontrar uma simples inspiração
Raios, onde está?
Aqui dentro, lá fora, onde?
Buscar desculpas para não achar...
Pedir desculpas por saber que está aqui.
Qualquer ruído, qualquer som
Se torna motivo para desconcentrar
- Como se aquela naturalidade ganhasse cores opacas.


Encontrar inspiração,
Quando se acostuma a mascarar melancolias
Transpondo versos para o papel.
Surpresa, a vida sem melancolia não tem arte?
Ah, tem. Tem, tem, tem.
Arte leve . . .
Arte sutil . . .
Arte doce e sincera.
É preciso se desligar de costumes,
E mandar buscar sua arte.


"Reencontrar seu embalo. . .
Observar as músicas, as palavras, os banhos"
Observar-se.
"Olhe nos meus olhos então, querida."
Ter a sensação de conhecer.
Não saber a cor da escova de dente, nem o número do sapato.
Mas a alma.
Como tantos passam pelo mundo sem fazer com ninguém.
Uma resposta antes da pergunta feita,
Um afago na precisão que encaixa perfeitamente,
Uma palavra que resuma uma inquietação tão incomum...
Conhecer é além.
Inspiração é ver além.
Transformar os dias em poesias
Extrair ternura de pedras e,
Arrancar suspiros de pequenas quedas d’água.
É não caber em si de tanto que quer dizer.
E, no entanto ficar em silêncio, olhando.
Cada um tem seu poder de transformação
-E metalinguagem não é comigo- mas
As coisas estão aí, meu bem, à disposição de belos olhos internos.
Imagina como seres inanimados podem suar tanta vida
Corrente – eterna – inacabável
E como podemos ignora-los, calando–os violentamente,
Arrancando-lhes a beleza que querem explodir?


Inspirar, aspirar, transpirar.

Fluxo santo de vida.

Fluxo optativo?

Meu fluxo, sem culpa.
2 de junho de 2008
à p a u l i s t a n a


" São Paulo! Comoção de minha vida…
Os meus amores são flores feitas de original…Arlequinal!
Traje de losangos… Cinza e ouro.
Luz e bruma… Forno e inverno morno.
Elegâncias sutis sem escândalos, sem ciúmes.
Perfumes de Paris… Arys!
Bofetadas líricas no Trianon… Algodoal!
São Paulo! Comoção de minha vida,
Galicismo a berrar nos desertos da América"}
- De Andrade, Mario.





"É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi
Da dura poesia concreta de tuas esquinas
Da deselegância discreta de tuas meninas [...]
Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas
Da força da grana que ergue e destrói coisas belas
Da feia fumaça que sobe apagando as estrelas
Eu vejo surgir teus poetas de campos e espaços
Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva..."}

- Veloso, Caetano.




.


O Centro Velho de São Paulo. Noite.
Quantas vezes passei por lá e achei tudo aquilo, tão cinza, tão apressado, tão angustiante e feio.
(Bate na boca).
Mas é surreal: como pode o dia barrar certas impressões, ofuscar com a luz natural uma beleza sutil que só o céu escuro, convida pra que se evidencie?
Tive a surpresa de passar pela experiência paulistana noturna essa semana: as ruas parecem mais largas, o frio não era congelante, mas na medida certa. As luzes, os carros não enlouquecidos apreciando a sinfonia silenciosa de seus motores me pareciam cena de filme.









Vou lhes contar um segredo: acho que posso entender de forma pessoal as sensações das pessoas que viveram ali. Tantos romances, tantos sorrisos, tantas macarronadas em família, tantas brigas, tantos escândalos, tapas, serenatas. História viva essa cidade de mil amores... Perigo em cada esquina? Olhe para os postes de luz e veja se consegue sentir medo. Não quero ser prisioneira da fama megalopólica, cheia de tiros. Também não quero fechar os olhos para a realidade mais contrastante que pude tocar.



Lanço duas boas alternativas: Ou há algo de muito belo e misterioso na noite paulistana, ou...


Eu não desisto mesmo de ver as coisas por aquele prisma meio poético, meio romântico...