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Mostrando postagens de 2010

INSIGHT

O Operário Em Construção - Vinicius de Moraes



Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.
De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.
Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mes…

FOI ENTÃO QUE ENTENDEU

Foi então que entendeu:
Ver suas covas e arrancar-lhe um sorriso, daqueles sinceros e difíceis de conseguir, era uma meta. Como era importante aquele sorriso, céus!
Não que fosse um esforço colher os sorrisos dela, mas fazê-la sorrir era mais especial do que quando qualquer outra pessoa sorria.
Era diferente, parece que as coisas com ela aconteciam em outros tempos, que não os da realidade, sabe?
Os trejeitos dela percorriam o dia todo sua memória, repetindo as cenas, mais uma vez e, outra e outra. E cada vez a memória vinha viva, quente, como se tivesse acabado de acontecer. Quando é bom é assim: a gente lembra pro sentimento retornar

E
Ele
Retorna
.


Foi então que entendeu:
A coisa era forte. E recíproca.
Os dias passaram a ser mais cheios de cor.

Eram tão diferentes e em suas disparidades completavam-se. Eram a doçura e a segurança em uníssono.
Tudo parecia acontecer para servir de cenário para seus momentos: se chovia, era para que pudessem dançar na rua, se fazia sol, era para que…

CENAS COTIDIANAS

De um lado da rua, um rapaz respira profundamente com os lábios encostados nos ombros de sua namorada, fecha os olhos por alguns instantes e continua a caminhar; ela o olha como se fosse a primeira vez e pisca longamente consentindo o gesto de carinho: eles se sabiam amores mútuos.
Ao lado deles passa uma moça sozinha, de óculos escuros, sorrindo sutilmente e andando com passos leves, porém rápidos, quase flutuantes: por certo, havia acabado de sair de um abraço bom... A moça, em sua total distração, esbarra num casal que fala alto, com expressões raivosas: ela olhando para frente, ele olhando para ela. Ela tentando manter as aparências, ele tentando se manter calmo. Ela sonhando com outro alguém. Ele também...
Eles estavam muito próximos, porém muito mais distantes do que se é capaz de supor... Do outro lado da rua, um senhor carrega flores, lindas gérberas! Avançando o olhar na direção em que ele caminha, se vê uma senhorinha simpática, aguardando a surpresa... Talvez, não tão surpre…

PRELÚDIO DO ANOITECER/ AMANHECER

Para ler ouvindo:
ANOITECER:
Tudo volta ao lugar que lhe pertence:
O dia começou com café como os dias merecem.
O amigo encontra o abraço com cheiro de nostalgia daquele que o recebe como sempre.
A poça d'água continua intacta sem que ninguém a perceba, meses depois da última chuva.
O reclamão continua a reclamar, pisando no próprio pé, comendo frutas verdes.
O sorriso do senhor volta inteiro (e ainda mais alegre) depois que terem desvanecido os últimos soluços.
O amor ressoa carinhoso, porque nele se acha sentido para todas as outras coisas.
O imprevisível continua sempre imprevisível, pegando no pulo quem gosta de saber de tudo.
Os corredores dos lugares queridos, continuam com o cheiro que apetece.
A rotina é sempre diversa, posta como nunca aparente. Assim gosta de existir.

E a alma? Continua se esvaindo entre eternas ternuras,
Encantada com a volta pra casa,
Olhando para a lua pendurada no céu,
Quando ainda é de tarde,
Num prelúdio de anoitecer,
...nos sonhos repousantes.


(.…

SNOOPY

- No que está pensando?
- Estou pensando em casamento...
- Por que? Pretende virar florista, fotógrafa, cerimonialista?
- Não... Cantora.
- Cantora de casamentos?
- Não... Mas pessoas vão se conhecer enquanto eu estiver cantando: "I can't see the sunshine, I'll be waiting for you baby..." e vão se casar, por minha causa.
- Eu acredito que sim. Sabe, o Snoopy uma vez disse ao Woodstock que ele era muito importante... Porque quando ele canta nas manhãs de primavera, as pessoas ficam muito felizes...E ele (Woodstock) é tão pequenininho...
- Hmm... Até esse cachorro orelhudo tem alguém pra dar risada das estações do ano...
- Sim... E pra se sacodir nas folhas do outono.



Música: You Only Live Once - The Strokes
(Don't don't) Don't get up. I can't see the sunshine. I'll be waiting for you baby, 'Cause I'm through. Sit me down. Shut me up. I'll calm down and I'll get along with you.
(Alright)
Shut me up Shut me up And I'll get along with you...



{sobre ganhar o mundo e devaneios matinais...}

Fatos incomuns me ocorrem de vez em sempre: Hoje mesmo, mal pude compreeender... Acordei, levantei da cama num rompante e, não pude deixar de sonhar. Fui tomada de pequenas sensações tão reais... E ao invés de estranhar os devaneios matinais, optei por apaixonar-me por eles. Vislumbrei a vida por um instante. Lembrei-me das conversas com uma amiga: "Alvares de Azevedo aos vinte já tinha escrito Noites na Taverna! E eu, o que fiz?". Sorri. Ânsia engraçada esta de querer se apropriar do mundo todo. Ânsia engraçada esta de reconhecer que na vida não cabem estreitezas... Então, notei: O que fiz é o que sou a cada dia. As pessoas que me são caras, os momentos que amanhã serão memórias, a batalha diária que alimenta os sonhos, as palavras que podem mudar um dia, uma vida... Os sorrisos, as pequenas simplicidades, as surpresas... Até mesmo os problemas e os defeitos são o que fiz, não são? A vida é rara, uma só e exatamente como tem de ser: diariamente especial. Vou ganhar o mundo sim.…

a palavra

Temo ser invadida pela minha própria palavra.
Consumida, fraca, mergulhada numa surdez atenciosa,
E num encantamento qualquer.
Não diria que me assustam as minhas letras,
Porque certamente depois de tantos repentes,
Tantas palpitações e pulos de afastamento,
Eu tomaria jeito e as faria parar.
Diria que as letras, pois bem, me surpreendem.
Surpreendem porque me conhecem e,
Ignoram minhas teimosias, revelando a mim quem sou.

E enquanto meus cadernos tomam conta do quarto,
Enquanto meus tinteiros secam,
Enquanto perco papéis debaixo da cama,
Enquanto a luz da vela permanece acesa
-iluminando o cômodo, construindo sombras-
Pajeando o trabalho das mãos cansadas sobre o papel,
O meu coração cheio de letras em estado de fervura,
Esperando pra nascer,
Alivia.

As palavras que me têm por completo e,
Não o inverso.
Relação de temor e paixão.
Esconderijo e exibições.
Sonho e desejo.
Se as palavras precisam de mim pra nascer,
Eu, recolhida na condição de travessia,
Confesso que preciso delas pra m…