21 de outubro de 2010
INSIGHT

O Operário Em Construção - Vinicius de Moraes



Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.
De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.
Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
– Garrafa, prato, facão –
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.
Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.
Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
– Exercer a profissão –
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.
E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.
E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:
Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.
E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.
Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
– "Convençam-no" do contrário –
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.
Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!
Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.
Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
– Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.
Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!
– Loucura! – gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
– Mentira! – disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.
E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.


| Eu só quero aprender a dizer "não". E não um "não" revoltado por causa nenhuma, que grita para o espaço e não concretiza a intenção. Quero dizer um "não" para as mazelas as quais me deparo dia-a-dia e que, o ritmo desenfreado e caótico da busca pelo bem-estar de cada humano, simplesmente ignora.
Quero dizer um "não", sem palavras, mas com atos. Uma torrente de "nãos" que ressoem efetivos na vida de alguém. Quero dizer "não" a uma sociedade que naturaliza um homem que não pode ter um emprego decente, chamando-o de vagabundo. "Não" a uma sociedade que repreende uma mulher que quer ser mãe, porque é melhor que o mundo de exploda, já que não tem solução. (!)
Não posso achar normal, o fato de um homem trabalhar dia e noite e chegar ao fim do mês, sem um centavo pra comprar um chocolate pra um filho que o espera em casa. Ou o fato, de alguma "bam-bam-bam" achar que todos precisam servi-la só porque possui um "cargo" mais valorizado socialmente. Quanta carência...
E sabe, não é piedade, não é compaixão, não é discurso político. É só uma vontade de dizer "não". (!!!)
Onde está o coletivo que não consigo alcançar? As vezes penso se esse meu desejo insaciável de atingir as feridas - que dóem, que mutilam, que paralisam - será um dia mais ameno. É o que dizem... "É a juventude que sonha mudar o mundo... Tão ingênuos e destemidos... Mas aí a vida de verdade aparece e eles aprendem a ser gente grande". Não é o que se ouve por aí? Ah sim... E a vida de verdade qual é? É esta daí... Que se conforma, naturaliza, acha que tudo é assim porque é e não porque o ser humano provoca. Nada é como é porque é. E para mim, desculpem os adeptos, mas não adianta utilizar o discurso de "o mundo é assim" como forma de fugir da culpa de não estar fazendo NADA para além do próprio umbigo. "Ah, mas eu sendo bom já faço uma grande coisa para o mundo!". Vá além. Tente ser ótimo. Que tal chegar a ser estupendo?
Nada de bom que se faz é pura bondade. Desculpem, mas se algum político cria um projeto incrível e salva a vida de muitas pessoas: parabéns a ele, deve ter chego a um grau de humanidade razoável. Ele não faz mais do que sua obrigação enquanto gente e, sinceramente, não acho que tenhamos que ter com ele uma dívida eterna! "Ah, mas ele foi tão bom...". Se ele exige algo em troca de sua ação, talvez ele não seja "lá tanta maravilha..." Todos deveriam ser bons. (!!!!!)

Parodiando Rubem Alves, que encontrou a "escola que sempre sonhou sem imaginar que pudesse existir", sigo caminhando a procurar o "mundo que sempre sonhei, sem imaginar que possa existir". |


Os operários - Tarsila do Amaral
22 de setembro de 2010
FOI ENTÃO QUE ENTENDEU

Foi então que entendeu:
Ver suas covas e arrancar-lhe um sorriso, daqueles sinceros e difíceis de conseguir, foi por muito tempo a sua meta de vida.
Como lhe era importante aquele sorriso, céus!
Não que lhe parecesse um esforço colher os sorrisos dela, era natural. Ela simplesmente sorria e, fazê-la sorrir era mais especial do que quando qualquer outra pessoa sorria.
Era diferente, parece que as coisas com ela aconteciam em tempos diferentes e surreais, assim, outros tempos que não os da realidade, sabe...
Os trejeitos dela percorriam o dia todo em sua memória, repetindo as cenas, mais uma vez e, outra e outra...
Foi então que entendeu:
A coisa era forte. E recíproca.
Os dias passaram a ser mais cheios de cor.
Eram tão diferentes e, em suas disparidades completavam-se. Eram puramente a doçura e a segurança em uníssono.
Tudo pareceu acontecer para servir de cenários para seus momentos... Se chovia, era para que pudessem dançar na rua, se fazia sol, era para que pudessem devorar um pote de sorvete em qualquer praça por aí...
Foi então que entendeu:
Engraçado como as coisas não precisam durar muito para serem as mais intensas da vida.
Não se conheciam desde a infância, foi assim: pá-pum.
E do jeito que veio, diluiu...
Talvez para que o tempo não estragasse as coisas e, para que as melhores memórias fossem conservadas para sempre. Mas uma coisa era certa: nada, nem ninguém, nem coisa alguma, podiam ser mais fortes e ocupar o maior espaço dentro do coração do que aquela relação, intensa e efêmera.
Algo de ruim aconteceu. Tudo acabou. De indispensáveis, passaram a ser nada.
Foi então que entendeu, sem nunca de fato entender.

"O que é que aconteceu? A gente se dava tão bem..."



 De vez em quando ainda lembra do sorriso sincero e difícil de conseguir. E das covas, e dos sorvetes e das chuvas.
22 de agosto de 2010
CENAS COTIDIANAS

De um lado da rua, um rapaz respira profundamente com os lábios encostados nos ombros de sua namorada, fecha os olhos por alguns instantes e continua a caminhar; ela o olha como se fosse a primeira vez e pisca longamente consentindo o gesto de carinho: eles se sabiam amores mútuos.
Ao lado deles passa uma moça sozinha, de óculos escuros, sorrindo sutilmente e andando com passos leves, porém rápidos, quase flutuantes: por certo, havia acabado de sair de um abraço bom... A moça, em sua total distração, esbarra num casal que fala alto, com expressões raivosas: ela olhando para frente, ele olhando para ela. Ela tentando manter as aparências, ele tentando se manter calmo. Ela sonhando com outro alguém. Ele também...
Eles estavam muito próximos, porém muito mais distantes do que se é capaz de supor...
Do outro lado da rua, um senhor carrega flores, lindas gérberas! Avançando o olhar na direção em que ele caminha, se vê uma senhorinha simpática, aguardando a surpresa... Talvez, não tão surpreendente, já que há muitos anos era notícia sabida as gérberas serem as preferidas, mas com certeza a "surpresa" era infinitamente amável, pelo olhar de ansiedade que ela não consegue esconder... A cada passo do senhor, que  já não era um primor na rapidez, a senhora sentia seu próprio coração batendo mais e mais forte...
No caminho até a sua senhora, o senhor passa ao lado de um jovem. Um jovem bonito, porém com um jeitinho de sozinho... Anda olhando para baixo, mordendo os lábios, quase sem saber onde pisa. Na verdade, sabe, ele só queria ter alguém para lhe sugerir que leve uma blusa ao sair de casa, porque pode fazer frio mais tarde... E pela infinita necessidade de ter alguém, sem nunca confiar que haja a pessoa certa e, sem coragem para admitir que perdeu-se a vida toda em relações errantes, ele insiste em viver, semana após semana, resfriado e, com todas as suas blusas sempre guardadas nas gavetas...



-----------

"sweet darlin, come hold me,
Just a little bit longer now
Sweet darlin come hold me,
Just a little bit longer now

When things were a little bit clearer
When you got nearer
I shied from your touch
Now that I know what I want, see,
I think that it haunts me,
I want you too much."



27 de julho de 2010
PRELÚDIO DO ANOITECER/ AMANHECER

Para ler ouvindo:

ANOITECER:

Tudo volta ao lugar que lhe pertence:
O dia começou com café como os dias merecem.
O amigo encontra o abraço com cheiro de nostalgia daquele que o recebe como sempre.
A poça d'água continua intacta sem que ninguém a perceba, meses depois da última chuva.
O reclamão continua a reclamar, pisando no próprio pé, comendo frutas verdes.
O sorriso do senhor volta inteiro (e ainda mais alegre) depois que terem desvanecido os últimos soluços.
O amor ressoa carinhoso, porque nele se acha sentido para todas as outras coisas.
O imprevisível continua sempre imprevisível, pegando no pulo quem gosta de saber de tudo.
Os corredores dos lugares queridos, continuam com o cheiro que apetece.
A rotina é sempre diversa, posta como nunca aparente. Assim gosta de existir.

E a alma? Continua se esvaindo entre eternas ternuras,
Encantada com a volta pra casa,
Olhando para a lua pendurada no céu,
Quando ainda é de tarde,
Num prelúdio de anoitecer,
...nos sonhos repousantes.


(...)

AMANHECER:

Anselmo se encantou com a Íris. Lírio Azul.
Ah, Anselmo, sina sua, que de tão doce, amargou.
Por que foi desprender-se de teu encantamento?
Esqueceu quem era, adultesceu.
A criança pura ficou pra trás e,
com ela toda a delícia de se duvidar.
(O encanto, a essência, o frescor, a vida que pulsa e não só sobrevive).
Anselmo foi pelo caminho, rastro de muitos:
inspirou-se numa genialidade mascarada,
alimentando uma persona quase mórbida,
do sucesso adulto que ignora a própria identidade.
Contradição que ressoa na sua eternidade pessoal...
Não (re)conhecia-se. Olhar no espelho foi ficando mais difícil a cada dia.
Consumo tenso. Retroalimentado. O mundo exterior engoliu.
Aí então a Íris viva surgiu.
Amor.
Caminho para a vida.
Luz que inspira sentido.
~ um desfecho criativo para a própria dor ~.
Tudo parecia bem. E então, a Irís viva morreu.
Destino sádico, ironia escrachada.
Morreu símbolo efêmero,
de luta para a construção do si-mesmo.
A Irís foi, mas deixou herança.
Anselmo despiu-se de si, para ser quem era.
Como um prelúdio do Amanhecer.
E o que é senão a vida,
senão um longo prelúdio
do próprio amanhecer para o mundo?
Anselmo: aos outros, um ingênuo.
A ele, um gênio de si.
Aos outros, um estrangeiro caminhante.
A ele, próprio caminho.

"Para muitos era um louco, para muitos era um mágico, muitos o temiam, muitos riam dele, muitos o amavam..."

(Reflexões sobre o conto "Irís" de Hermann Hesse)
28 de maio de 2010
SNOOPY

- No que está pensando?
- Estou pensando em casamento...
- Por que? Pretende virar florista, fotógrafa, cerimonialista?
- Não... Cantora.
- Cantora de casamentos?
- Não... Mas pessoas vão se conhecer enquanto eu estiver cantando: "I can't see the sunshine, I'll be waiting for you baby..." e vão se casar, por minha causa.
- Eu acredito que sim. Sabe, o Snoopy uma vez disse ao Woodstock que ele era muito importante... Porque quando ele canta nas manhãs de primavera, as pessoas ficam muito felizes...E ele (Woodstock) é tão pequenininho...
- Hmm... Até esse cachorro orelhudo tem alguém pra dar risada das estações do ano...
- Sim... E pra se sacodir nas folhas do outono.



Música: You Only Live Once - The Strokes

(Don't don't) Don't get up.
I can't see the sunshine.
I'll be waiting for you baby,
'Cause I'm through.
Sit me down.
Shut me up.
I'll calm down
and I'll get along with you.

(Alright)

Shut me up
Shut me up
And I'll get along with you...




6 de abril de 2010
{sobre ganhar o mundo e devaneios matinais...}



Fatos incomuns me ocorrem de vez em sempre:
Hoje mesmo, mal pude compreeender... Acordei, levantei da cama num rompante e, não pude deixar de sonhar. Fui tomada de pequenas sensações tão reais... E ao invés de estranhar os devaneios matinais, optei por apaixonar-me por eles.
Vislumbrei a vida por um instante.
Lembrei-me das conversas com uma amiga: "Alvares de Azevedo aos vinte já tinha escrito Noites na Taverna! E eu, o que fiz?". Sorri.
Ânsia engraçada esta de querer se apropriar do mundo todo.
Ânsia engraçada esta de reconhecer que na vida não cabem estreitezas...
Então, notei: O que fiz é o que sou a cada dia. As pessoas que me são caras, os momentos que amanhã serão memórias, a batalha diária que alimenta os sonhos, as palavras que podem mudar um dia, uma vida...
Os sorrisos, as pequenas simplicidades, as surpresas... Até mesmo os problemas e os defeitos são o que fiz, não são? A vida é rara, uma só e exatamente como tem de ser: diariamente especial.
Vou ganhar o mundo sim... E começar por ganhar a mim mesma.
Então caminhei pra mais um dia. Chuvoso, todo cinza... Cenário pra muitas cores dentro de mim.


(Ale)atoriamente:

Que achas, doce sorriso,
de inspirar suaves canções nos meus ouvidos distraídos?
Que achas, vai me diz,
de tua espontaneidade me cercar de palavras
que já nascem poesia rara?
Que achas, então,
de teus gestos sinceros, sinceros ruídos,
serem luz às minhas criações,
girando e girando no coração de poeta,
da menina que sonha?
"A gente podia sair agora,
ganhar o mundo,
e viver só lembrando daquilo
que a gente já viveu".
Ah, doce sorriso, pura vida me propões.
Não sabes como me sussurras
tantas belezas descompromissadas
e, como isso é bonito de ver...
...E saborear.
Mas sabes, de fato,
reconhecer meus almejos,
apetecer-se por eles e,
aproximá-los de mim.
Sabemos juntos assim, doce sorriso,
numa certeza pueril e clara,
que já ganhamos o mundo diversas vezes,
sem termos voado para muito longe...
(Ale)atoriamente.

 
 
6 de março de 2010
a palavra

Temo ser invadida pela minha própria palavra.
Consumida, fraca, mergulhada numa surdez atenciosa,
E num encantamento qualquer.
Não diria que me assustam as minhas letras,
Porque certamente depois de tantos repentes,
Tantas palpitações e pulos de afastamento,
Eu tomaria jeito e as faria parar.
Diria que as letras, pois bem, me surpreendem.
Surpreendem porque me conhecem e,
Ignoram minhas teimosias, revelando a mim quem sou.

E enquanto meus cadernos tomam conta do quarto,
Enquanto meus tinteiros secam,
Enquanto perco papéis debaixo da cama,
Enquanto a luz da vela permanece acesa
-iluminando o cômodo, construindo sombras-
Pajeando o trabalho das mãos cansadas sobre o papel,
O meu coração cheio de letras em estado de fervura,
Esperando pra nascer,
Alivia.

As palavras que me têm por completo e,
Não o inverso.
Relação de temor e paixão.
Esconderijo e exibições.
Sonho e desejo.
Se as palavras precisam de mim pra nascer,
Eu, recolhida na condição de travessia,
Confesso que preciso delas pra me manter viva.