22 de junho de 2009
saga de uma flor urbana

Ele carregava a rosa cor-de-rosa, envolta por plástico e papel de seda com uma das mãos, enquanto a outra segurava o apoio do ônibus lotado.
Era uma rosa já aberta, com cara de que queria ser entregue logo ao seu destino.
O dono da rosa mais protegida da cidade, pois bem, tinha olhos de ansiedade, pouco piscava e nem parecia estar no centro da cidade de São Paulo.
Via-se que a mão da rosa já suava, mas não parecia incomodar. Dali a alguns minutos a própria rosa iria começar a murchar, murchar... Ou não, quem sabe.
Aposto que a outra mão -agora livre- após ele ter conseguido o almejado lugar para sentar-se, estava à espera de afagar os cabelos da moça, logo após a sutil encomenda.
Uma saga na cidade, num dia de semana, com tantos coadjuvantes a trabalhar...
Não sei por quais motivos, mas ele se dirigiu até uma floricultura sim, do outro lado da cidade, apenas para comprar uma rosa cor-de-rosa. Não existem floriculturas mais próximas ou havia um significado? Relevâncias à parte, a rosa era bonita.
Depois do ônibus, o metrô, e entre estações e portas que se abrem, apitam, fecham e servem de apoio pro cansaço de muita gente, estava lá o moço, com a mesma cara estática, imaginando o que dizer no momento que a visse.
Deve ser um amor daqueles puros e singelos. E nesse caso, de mochilas e Ipod's. Shopping e catracas diárias.
Descendo do metrô, seus passos eram tranquilos e ritmados. Não parecia ter pressa. Talvez estivesse até a adiar o tempo alguns minutos, porque saiu muito cedo de casa com medo de atrasar-se.
A rosa continuava intacta. Ele estava ouvindo a música do dia que se conheceram.
E lá foi ele, seguindo seu caminho por onde não pude mais acompanhar, nem com os olhos, nem com as divagações possíveis e um tanto, surreais. Desejei-lhe sorte, silenciosamente, e boas cócegas no coração. "Corre, vai dizer pro seu benzinho, que o amor é lindo..."
Talvez o presente fosse parar num vaso, morrer após uns dias, e possivelmente acabar no lixo, ou numa caixinha guarda-pétalas se a moça gostar de guardar detalhes pra lembrar depois.
Mas com certeza, a rosa tinha consigo tanto sentimento, que nem mesmo a própria natureza seria capaz de traduzir.
E há quem diga que a correria corrói as coisas. E as rosas cor-de-rosa? Onde ficam nessa história? Hein, hein?



Marina Cruz sempre repara em algumas coisas, mas as pessoas não percebem.
Marina Cruz acha lindas todas as surpresinhas nas quais ela é a moça da história.
2 de junho de 2009
Devagar, menina

Quanto me custa perceber
Que nem todos meus versos são expostos
Que nem todos meus afazeres saem do papel
Que nem todos os meus planos, acontecem.

As vezes o tempo escorre,
A fala encurta,
O gesto empobrece.

E minhas expectativas,
comigo,
por vezes, são meras.

Um movimento previsível,
mas mesmo assim estranho e,
exigente demais pra mim.

É bonito quando a vida me dá uns tapas,
E mostra o que é meu.
Essencial e induscutível.
Me dá saudade de mim.

Me fala: "Devagar, menina..."
Me alisa os cabelos e, revela
Que eu consigo assim.
Não de outro jeito, de outros e de outrem.
Do meu jeitinho,
de menina,
de mulher,
devagar.


"Quem tem por que viver pode suportar quase qualquer como." - N.--------