Viveu dias em que todas as realidades foram aumentadas, em que cada olhar pareceu um abraço, em que algumas vozes gritantes estavam mudas [e mereciam estar].
Viveu dias em que agradeceu por estar confusa, sem saber o que seria dela se tivesse uma única história para viver. [o perigo de possuir apenas uma história as vezes vem à tona como uma verdade difícil de digerir].
Viveu dias em que se surpreendeu com a falta de noção das pessoas ao seu redor e, viveu outros em que se surpreendeu por estar surpresa. [a falta de noção é corriqueira] - Deveria se surpreender na verdade, é com a coerência humana. [se é que há].
Viveu dias intensos [e exclamou sozinha: ainda bem!]
Viveu conversas sobre laços... Sobre vínculos... Sobre afetos. Ao adormecer, percebeu que viveu "bons encontros". [e esta expressão a acompanhou por semanas]
Viveu dias ácidos, em que as pessoas desconhecidas lhe pareciam mais amigas que as de longa data. [identificação inesquecível, efêmera e intensa] Viveu outros em que alguns bons amigos a despertaram com suas almas dispostas e vivazes [solidariedade e carinho]. Mostraram que sabiam o caminho para encontrarem seu coração. E quiseram ir até lá.
Viveu dias surreais em que mergulhou na transitoriedade, acolheu a instabilidade e deixou-se mobilizar pelo caos. Nestes dias [espera que para sempre] pôde falar do que é difícil, deu espaço para o sofrimento, que é real, é concreto. E riu. Riu de tanta hipocrisia que a circundou nas guerras frias que presenciou... [já viu sorrisos mais amarelos que as páginas deixadas na gaveta].
Viveu dias em que quis estar inteira para poder ser mais pra quem é tão tudo, e ainda não sabe [estes dias seguem sem previsão de término]
Viveu dias em que quis enxergar margaridas nas vestes cinzas das suas esperanças e, só encontrou cinza. [as vezes um charuto é só um charuto...] Viveu dias em que preferiu nada saber, inocentando-se das consequências racionais...
Viveu dias em sentiu sua humanidade na pura condição de ser quem é. Amou. Conheceu. Sorriu. Saboreou o sentido das coisas. Se relacionou e, acima de tudo: viveu e ainda viverá. Sabe-se lá quantas vezes ainda experimentará as mesmas sensações e, seus inversos e reversos. [enquanto ainda tiver alma]
Vou fazer um samba pra contar,
a dor da madrugada que sem fim,
entra adentro do meu peito e faz chorar
as histórias repartidas sobre mim.
É a dona madrugada,
que traz fome de viver,
traz jeitos de entender,
traz tudo o que organiza e,
o que atrapalha pra valer. (!)
Ai, madrugada...
Ai, madrugada...
Leva longe essa saudade,
dos encontros puros de paixão...
Dessas almas grandiosas,
de vida e de doação
.
Pra que bagunçar um coração?
Pra dar mais emoção?
Pra pulsar na multidão?
Pra sambar sem restrição?
... Ou só pra sonhar um sonho bom?
Madrugada é flor de lis.
Suas cenas, inquietações, vontades, birutices e chateações...
... Só me trazem, na verdade:
- é cheiro de vontade de ser feliz.
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Ai, a vida me chamou...
Pediu licença pra tantos mais.
Mais pitangas, mais mar.
Mais eu, mais aqueles que são de mim.
Mais poiesis, mais cheiros.
Menos tudo que não me faz mais eco.
Ecoou, ecoou...
Virou lembrar.
A vida me deu fome.
A vida me deu vontade.
A vida me chamou. Quem sou eu pra não seguir...

