27 de julho de 2010
Para ler ouvindo:

ANOITECER:

Tudo volta ao lugar que lhe pertence:
O dia começou com café como os dias merecem.
O amigo encontra o abraço com cheiro de nostalgia daquele que o recebe como sempre.
A poça d'água continua intacta sem que ninguém a perceba, meses depois da última chuva.
O reclamão continua a reclamar, pisando no próprio pé, comendo frutas verdes.
O sorriso do senhor volta inteiro (e ainda mais alegre) depois que terem desvanecido os últimos soluços.
O amor ressoa carinhoso, porque nele se acha sentido para todas as outras coisas.
O imprevisível continua sempre imprevisível, pegando no pulo quem gosta de saber de tudo.
Os corredores dos lugares queridos, continuam com o cheiro que apetece.
A rotina é sempre diversa, posta como nunca aparente. Assim gosta de existir.

E a alma? Continua se esvaindo entre eternas ternuras,
Encantada com a volta pra casa,
Olhando para a lua pendurada no céu,
Quando ainda é de tarde,
Num prelúdio de anoitecer,
...nos sonhos repousantes.


(...)

AMANHECER:

Anselmo se encantou com a Íris. Lírio Azul.
Ah, Anselmo, sina sua, que de tão doce, amargou.
Por que foi desprender-se de teu encantamento?
Esqueceu quem era, adultesceu.
A criança pura ficou pra trás e,
com ela toda a delícia de se duvidar.
(O encanto, a essência, o frescor, a vida que pulsa e não só sobrevive).
Anselmo foi pelo caminho, rastro de muitos:
inspirou-se numa genialidade mascarada,
alimentando uma persona quase mórbida,
do sucesso adulto que ignora a própria identidade.
Contradição que ressoa na sua eternidade pessoal...
Não (re)conhecia-se. Olhar no espelho foi ficando mais difícil a cada dia.
Consumo tenso. Retroalimentado. O mundo exterior engoliu.
Aí então a Íris viva surgiu.
Amor.
Caminho para a vida.
Luz que inspira sentido.
~ um desfecho criativo para a própria dor ~.
Tudo parecia bem. E então, a Irís viva morreu.
Destino sádico, ironia escrachada.
Morreu símbolo efêmero,
de luta para a construção do si-mesmo.
A Irís foi, mas deixou herança.
Anselmo despiu-se de si, para ser quem era.
Como um prelúdio do Amanhecer.
E o que é senão a vida,
senão um longo prelúdio
do próprio amanhecer para o mundo?
Anselmo: aos outros, um ingênuo.
A ele, um gênio de si.
Aos outros, um estrangeiro caminhante.
A ele, próprio caminho.

"Para muitos era um louco, para muitos era um mágico, muitos o temiam, muitos riam dele, muitos o amavam..."

(Reflexões sobre o conto "Irís" de Hermann Hesse)

Marina Cruz

É Psicóloga por formação, Educadora por vocação e Falartista por opção.

1 comentários

  1. Muito bom!! Excelente conto!! Gostei muito!!

    []s