7 de abril de 2009
Certas palavras me inquietam. Certas, erradas, e não outras.
Elas parecem me servir, de um jeito enevoado e propositalmente censurado, para não vir à tona tão claramente.
As vezes, quase frequentemente, me suscitam a imagem ínfima de uma guerra literária. Das pacíficas e frias e quase incontidas. Não das guerras gramaticais e de soldados que lutam pra ganhar: a de guerra que luta só pra guerrear.
Como num jogo de inspirações e citações mal escondidas, ou de recados subentendidos, ou de qualquer coisa que signifique muito naquelas noites de solidão povoada, regadas a melodias agridoces.
Tudo isso pra chegar num consenso declarado, de páginas reviradas que tomam sentido, de versos mal escritos que cubram as tropas vitoriosas com a capa da identificação.
E de fato, não é e nem precisa ser a literatura o objeto primordial da direção dos ataques e recuos: são as idéias, os sentimentos, aquilo que de abstrato e tão intenso só a nossa linguagem consegue exprimir.

Sabe aquelas festas de pianos e palcos, de danças agitadas, vestidos coloridos e sapatos envernizados? Aquelas, regadas a sax, lembrando nitidamente Just in Time da Maysa, em que há paradinhas na música para as pessoas baterem palmas combinadas e completarem o último verso? Essa é a imagem que me vêm à cabeça, para guerras-frias intencionais. Olhares em meio à viradas repentinas, falas que acabam subitamente interrompendo o entendimento do assunto assim que acaba a música, beijos no rosto que querem dizer: "conversamos depois".

Quanta coisa sem sentido! Quando tudo poderia ser menos tenso, mais leve, menos sintomático à gastrite. . . E não? Sem contar a possibilidade em potencial de alegrias e conversas que dizem exatamente o que querem dizer.

Isso tudo, parece tão, tão, tão bobo diante da realidade.
Dessa realidade cortante que leva as palavras pra tão longe, exigindo-as silenciosas, pacatas e ruminantes. Soníferas, polidas e cheias de pontos finais.


Marina Cruz

É Psicóloga por formação, Educadora por vocação e Falartista por opção.

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