23 de maio de 2008
As vezes eles se irritam. Quem vê de fora, tem a impressão de que existe um fio imaginário entre os dois, e que propositalmente, querem estourar esse fio caminhando cada um pra um lado, repulsando seus campos magnéticos para quanto mais distante, melhor.
Então surpresa! Fio elástico. Querem repulsa, ganham atração. Chega de escrever fisicamente.
Ele só quer correr o dia todo atrás de algo que não sabe o nome, ficar cansado, suar absurdos, chegar em casa e ouvir ela cantando She, do Elvis Costello, no chuveiro, belamente desafinada, sem vergonha de que alguém lhe diga que está totalmente fora do ritmo:

"She...
May be the face I can't forget.
A trace of pleasure or regret
May be my treasure or the price
I have to pay..."

E então, depois de recuperar a frequencia cardíaca ideal e dizer que ela está linda, a levar pra um lugar atípico e marcante. Pode ser comer jabuticabas direto do pé, ou andar de kart numa pista velha. O lugar é o que menos importa, desde que consigam brigar sossegados, e depois fazer aspazes amorosamente.
Claro que essas coisas nunca vieram a acontecer, ele apenas queria que fosse assim.

Ele a confundia com seus sinais de censura, então, na madrugada, ela se percebe sozinha vagando pela internet, sem saber onde visitar, lendo páginas repetidas de blogs por aí, como se não pudesse mais controlar suas pulsões. Ela tinha que admitir: só o queria por perto, num longo abraço, e aí sim internet nenhuma seria relevante. A sensação de imaginá-lo dormindo (calmamente, com bons sonhos) enquanto ela perdia o sono, penando em tentar encontrar na memória olhares mútuos que expressassem carinho, para ela parecia aterrorizante. E sim, era era o tipo de pessoa que transformava as coisas em cenas aterrorizantes, não a julguemos por isso.

"Eu deveria estar dormindo essa hora... "
Ela olha para o lado e de relance, vê seu caderno-filho jogado ao chão, com algumas folhas rasgadas. Foi da noite em que releu suas anotações infantis a respeito de como aquele florescer surgiu, inquietantemente, em seu coração fraco. Bate o arrependimento de ter rasgado. Garanto que se estivessem presentes na cena, veriam o quão inexpressiva era sua expressão... Juntando, ridiculamente, pequenos pedaços de papel, que de um jeito ou de outro, eram parte de sua história. Um dia poderiam servir para chorar e lembrar que gosto tem lágrima de amor.

"Ah, pequena menina, se você soubesse... "

Os dois olhavam para a lua ao mesmo tempo, querendo sonhar um dia vê-la juntos. Os dois amavam caladamente, falando baixinho para que nem mesmo eles consiguissem ouvir. Os dois sofriam pela não-chance de dizerem claramente, sem metáforas ou inseguranças, o quanto se queriam. (!)
Os dois eram amantes-teimosos-que-não-queriam-transformar-seus-sentimentos-em-algo-meramente-relacional.
E é tudo tão simples, pombas: falha de comunicação. Anos de falha de comunicação...

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Que bom que a vida
Sutil e violenta
Nos dá carinhosos tapas
De preocupação maternal.
Que bom que a vida
Sutil e violenta
Traz maré de boas novas
Que a gente custa a entender...
~

Marina Cruz

É Psicóloga por formação, Educadora por vocação e Falartista por opção.

4 comentários

  1. Adorei o texto! Não sei porque você hesita tanto!
    Escrevemos coisas que não vivemos, oras... super natural!


    Supraaanatural!
    Sooooooooobrenaturaaal!

    Oh well...

    Descartes tudo, meu bem, menos seus textos.

  2. Que bom!
    lindo texto, Marina..
    há sempre algo de bom por aqui.

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