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a palavra

Temo ser invadida pela minha própria palavra. Consumida, fraca, mergulhada numa surdez atenciosa, E num encantamento qualquer. Não diria que me assustam as minhas letras, Porque certamente depois de tantos repentes, Tantas palpitações e pulos de afastamento, Eu tomaria jeito e as faria parar. Diria que as letras, pois bem, me surpreendem. Surpreendem porque me conhecem e, Ignoram minhas teimosias, revelando a mim quem sou. E enquanto meus cadernos tomam conta do quarto, Enquanto meus tinteiros secam, Enquanto perco papéis debaixo da cama, Enquanto a luz da vela permanece acesa -iluminando o cômodo, construindo sombras- Pajeando o trabalho das mãos cansadas sobre o papel, O meu coração cheio de letras em estado de fervura, Esperando pra nascer, Alivia. As palavras que me têm por completo e, Não o inverso. Relação de temor e paixão. Esconderijo e exibições. Sonho e desejo. Se as palavras precisam de mim pra nascer, Eu, recolhida na condição de travessia, C...

FEITO EU

Para ler ouvindo: Infinito particular by Marisa Monte on Grooveshark Sou feita das risadas que já dei dos choros que já silenciei e de outros tantos que escorreram ácidos... Sou feita das calçadas que já pisei dos abraços que sem querer guardei e daqueles que já dispensei, ora essa. Sou feita das piadas que inventei das coisas sérias que ignorei e que de manhã corri atrás, pra alcançar. [há sempre um momento bom, há de se acreditar...] Sou feita das cartas que rasguei das pétalas que enterrei e de naturezas minhas, andantes, cansantes. Sou feita dos acasos que, violenta, calei de casos que transbordei e inquietações várias, calmarias, meninices. Sou feita dos clichês que aceitei das evidências que suportei e da intuição que quis sempre reinante. [errante, flutuante até!...] Sou feita da liberdade que busquei da fé que lapidei da transformação que acreditei e de atmosferas tantas que me são caras. Sou feita das lapidações que ...

lar

Eu que já não quero mais calar, grito suave pra fazer ouvir os corações. O grito suave, que quero muito meu, Aos poucos gera vida, cultiva e renasce quantas vezes for necessário, Uma delicadeza alicerçada nas causas... Um grito silencioso, passaroso e calmo. Eu que já não quero mais só ver a banda passar, Canto sem paredes que se façam de muralha. O som expande... Ganha força e chega onde deve chegar. (!) Canto baixinho, porque é assim que sou. É assim que quero que seja. Eu que já não sou capaz de ignorar quem sou, Vou com coragem um tanto mais fundo, até onde der de mim mesma. Os mais cuidadosos já avisam de antemão: "cuidado... Isso pode ser perigoso!" E o que não o é? Se feliz é quem desconhece, Que me desculpem os adeptos, Mas conhecer é maravilhoso... Eu que já não quero mais ver a vida acontecer Sem a chance impetuosa de criar, fazer, chorar, vencer, Não quero mais a ansiedade do não-saber. Entendo o quão "minhas...

POR UM TRIZ

"Que a lente do amor aumente Faça em presença o que é ausente Porque só se vive por um triz Só o amor pode juntar O que o desejo separou Não poderia o ontem se Vestir de amanhã (?) Porque só se vive por um triz . . . " Se só se vive por um triz, que sem reservas, cuidemos de cada pedaço de amor que espalhamos por aí - de cada um que cativamos e daqueles que de propósito nos cativaram - para que quando o "triz" chegar, ainda haja um rastro de sorriso pra tudo o que há de bom viver intato. Eu, confesso que, o riso pra mim é a medida. Quando há qualquer jeito de sorrir, de brincar e brindar... Então as coisas permanecem do jeito que deviam ser - e que muito me agradam. Ah, como os sorrisos me são caros e me apetecem! O riso me escapa pelos cantos... E quando me cerram, tornando-o amarelo e ensaiado, então dá vontade de fugir. Adoro a liberdade ingênua das brincadeiras e dos sorrisos... De um jeito ou de outro, sinto que as pessoas que me deixam sorrir e q...

pequena humana

Conheci uma menina pequena, que acostumada a viver de frente com contradições, posta numa felicidade insuportável, não conseguiu ir pra frente nem pra trás. A felicidade pra ela pareceu algo a que realmente temer. E ela se viu, pela primeira vez na vida, humanamente frágil e estranhamente feliz. Por vezes, relutou... Por outras tantas achou tudo irreal. "E quando tudo acabar?" - Ela repetia pra mim incansavelmente. Então eu dizia: "Mas porquê, porquê tudo tem que acabar?" Balbuciando, ela dizia: "É tudo muito inconstante..." ---------- "Pequena, quando tudo acabar... Vai restar você e, tudo o que quiser te acompanhar".

saga de uma flor urbana

Ele carregava a rosa cor-de-rosa, envolta por plástico e papel de seda com uma das mãos, enquanto a outra segurava o apoio do ônibus lotado. Era uma rosa já aberta, com cara de que queria ser entregue logo ao seu destino. O dono da rosa mais protegida da cidade, pois bem, tinha olhos de ansiedade, pouco piscava e nem parecia estar no centro da cidade de São Paulo. Via-se que a mão da rosa já suava, mas não parecia incomodar. Dali a alguns minutos a própria rosa iria começar a murchar, murchar... Ou não, quem sabe. Aposto que a outra mão -agora livre- após ele ter conseguido o almejado lugar para sentar-se, estava à espera de afagar os cabelos da moça, logo após a sutil encomenda. Uma saga na cidade, num dia de semana, com tantos coadjuvantes a trabalhar... Não sei por quais motivos, mas ele se dirigiu até uma floricultura sim, do outro lado da cidade, apenas para comprar uma rosa cor-de-rosa. Não existem floriculturas mais próximas ou havia um significado? Relevâncias à parte, a ...

Devagar, menina

Quanto me custa perceber Que nem todos meus versos são expostos Que nem todos meus afazeres saem do papel Que nem todos os meus planos, acontecem. As vezes o tempo escorre, A fala encurta, O gesto empobrece. E minhas expectativas, comigo, por vezes, são meras. Um movimento previsível, mas mesmo assim estranho e, exigente demais pra mim. É bonito quando a vida me dá uns tapas, E mostra o que é meu. Essencial e induscutível. Me dá saudade de mim. Me fala: "Devagar, menina..." Me alisa os cabelos e, revela Que eu consigo assim. Não de outro jeito, de outros e de outrem. Do meu jeitinho, de menina, de mulher, devagar. "Quem tem por que viver pode suportar quase qualquer como." - N. --------